Chutando o pau da barraca

 

A 25 anos atrás, na prova final do campeonato Europeu de Fórmula Ford, no autódromo de Hockenhein, Alemanha, eu era o favorito para a conquista do título de campeão Europeu 1980. Tudo o que eu tinha a fazer era chegar na frente de meu companheiro de equipe na Royalle Racing, o suíço Bo-Martinson, e ao mesmo tempo não deixar que o terceiro colocado, Roberto Pupo Moreno, fizesse muitos pontos a mais do que eu.

 

Após um ano difícil, onde passei por uma profunda depressão acompanhada de um acidente no início da temporada em Silverstone, meu relacionamento pessoal com o chefe da equipe e o engenheiro responsável pelos carros era o pior possível, provocado não somente pelos problemas decorrentes de meu estado emocional mas também pelas muitas maracutaias que a equipe vinha aprontado. A tensão entre nós era altíssima e ambas as partes não viam a hora de terminar a temporada para que cada um seguisse o seu próprio caminho.

 

O que interessava a mim era ser campeão, o que certamente me abriria portas de patrocínio para a F3 e posteriormente a F1, que era meu objetivo. O que interessava ao time era que um dos carros vencesse o campeonato, não importando qual dos pilotos. Os sentimentos de desdém e rejeição eram asfixiantes e o time dava toda a impressão de que não moveria uma palha a meu favor. Neste clima de guerra saí para a primeira sessão de treinos antes da corrida. Ainda na primeira volta percebi que o carro batia no chão nas freadas, o que provocou um vôo por cima da chicane que quebra a velocidade da grande reta da floresta. Aterrizei sobre um dos lados da suspensão dianteira e me arrastei para os boxes fumando de raiva, com a certeza de que o problema com o carro fora premeditado pela equipe.

 

Chutei o pau da barraca: Num repente de ira, tomei a decisão irracional de abandonar a equipe. Um dos times concorrentes me emprestou outro carro, com o qual classifiquei na frente de meus rivais, mas meu chefe de equipe pressionou a organização que acabou vetando minha participação na prova, vencida por Roberto Moreno. Meu companheiro de equipe foi o campeão e eu não somente perdi o campeonato como também enterrei a carreira.

 

25 anos depois, neste ano de 2005, iniciei bem a temporada, confirmando ser um dos sérios candidatos ao título. Após liderar nas 4 primeiras etapas, súbita e sistematicamente, nas últimas 7 provas, as mais esdrúxulas situações aconteceram, entre elas duas falhas mecânicas consecutivas (uma delas extremamente perigosa - suspensão),  problemas na distribuição dos carros, e por fim uma injusta penalização que praticamente sepultou minhas chances de lutar, faltando apenas 5 provas para o encerramento do campeonato.

 

O vulcão da ira e desapontamento, insuflado pela convicção de estar sendo preterido e boicotado pela equipe, voltaram com força total. O incidente da penalização injusta foi a gota d’água que faltava mas desta vez, ao invés de reagir na hora e de forma passional como no passado, tratei de me conduzir dentro dos parâmetros do direito e, racionalmente, fui atrás de provas, depoimentos, testemunhas e apoio político que precisava para fazer valer os meus direitos e brigar pela revogação da penalização através de um tribunal desportivo. Já estava com o chute pronto e o pau da barraca na mira, quando tomei coragem de colocar todo este movimento à prova, sob a luz da fé e da mensagem de amor e paz que me motiva viver e correr.

 

“... Com medidas de prudência irás à gerra. Na multidão de conselheiros está a vitória” Incentivado por este provérbio bíblico peguei o telefone e liguei para Moisés. Ele estava ocupado atendendo outro Atleta de Cristo, ocasião em que pude ouvir como a sabedoria de Deus fluía través de suas palavras de encorajamento, acompanhadas de uma oração  simples, mas poderosa, o que serviu para esvaziar-me de minhas razões e abrir meu coração para ouvir o que o profeta do esporte tinha a dizer. Após me ouvir com toda a atenção, ele validou minhas razões e, demonstrando profundo entendimento da situação ponderou: Se você for atrás de seus direitos e confrontar o comportamento de sua equipe, o que você vai ganhar? O que você vai perder? Ao invés de buscar a justiça humana, que é limitada e traz consigo danos colaterais, confie na justiça divina que, ao seu tempo não falha, trazendo consigo não somente conforto, mas o potencial de ver Deus agir em seu favor no futuro.

 

Como a neblina da manhã que desaparece quando o sol se levanta, as palavras de Moisés serviram para dissipar a névoa da mágoa que me cegava os olhos para ver outras importantes verdades, como as palavras de Jesus: “...Se alguém te bater numa face, dê a outra também. Se alguém te obrigar a andar uma milha, vai com ele duas. Se alguém tomar a tua túnica, dê também a sua capa... seja como teu Pai do céu, que faz nascer o sol sobre justos e injustos”. Eu ainda estava redigindo esta carta quando meu melhor amigo aqui nos Estados Unidos me telefonou, confirmando as palavras de Moisés, então os meus olhos se abriram de vez para ver, que tudo o que eu estava passando nada mais era do que a repetição no teste em que, a 25 anos atrás, eu fora reprovado, então eu desisti de chutar o pau da barraca novamente.

 

Fernando Dias Ribeiro